Como Agradar às Mulheres II

O macho prepara-se para a noite que anseia há vários meses. Não, a ideia não é terminar a comer tremoços, beber minis e ver jogos da Liga dos Campeões, mas sim viver momentos escaldantes e escrever uma ode aos prazeres da carne. Como nos tempos de solteiro. A pergunta é: como é que um gajo básico, que gosta mesmo é de bola e de contar piadas com os amigos, pode começar a fazer poesia de um momento para o outro?

Ora bem, a odisseia começa a meio da tarde. Ele sai mais cedo do trabalho e pede à própria mãe que ature os netos naquela noite. E que, já agora, os leve no dia seguinte à escola.

A seguir vai à sex shop. Não percebe muito daquelas modernices dos brinquedos sexuais, mas ouviu a mulher dizer que as tipas da saga “O Sexo e a Cidade”, acham um piadão do caraças a essas coisas. Com vergonha de perguntar à funcionária da loja qual a melhor sugestão picante para a sua noite tórrida, acaba por comprar um gel lubrificante, um par de algemas e um objecto fálico (de pequenas dimensões, para não se sentir inferiorizado).

De seguida vai buscar um carregamento de lenha, para pôr a lareira a arder durante a noite toda e potenciar, assim, o ambiente intimista. No entanto, por comprar tanta lenha e por demorar tanto tempo a carregá-la até ao segundo andar, atrasa-se a fazer as compras para o jantar. Sim, é ele que vai fazer o jantar. Teme-se o pior…

Já de avental ao peito e em puro stress, porque ela está quase a chegar a casa, vai alinhavando um caril de seitã com courgetes. Nem ele sabe se vai gostar do jantar, mas leu num site qualquer que as gajas ficam muito impressionadas com homens que não limitam aos bifes com batata frita, regados com vinho resgatado a dois euros de um hipermercado. 

Entretanto ela chega e começa a mandar vir com a decoração da mesa de jantar. Ele não tinha nada que usar a toalha vermelha, porque estava guardada para a recepção ao tio que vive nos Estados Unidos e que é já no próximo fim‑de‑semana: “Com o jeitinho que tens para servir vinho, vais enchê-la de manchas!”.

Depois, a donzela começa a reclamar com o cheiro a fumo que vem da lareira: – “Nem sei porque é que fui gastar dinheiro no cabeleireiro, se vou ficar a cheirar a grelhados!”.

De seguida, quase perde as estribeiras quando percebe que as crianças estão com a sogra e que é ela quem as vai levar à escola na manhã seguinte. “Sabes que ela vai enchê-los de guloseimas toda a noite e que conduz mal como o raio! Já estou com o coração nas mãos!”.

Fica finalmente agradada com a apresentação da iguaria preparada pelo marido. Mas assim que leva a primeira garfada à boca, quase cospe as entranhas: “Perdeste a cabeça, ou quê? Porque é que puseste tanto picante?”.

Para se salvar do fiasco total, o macho latino precisa que a incursão pelo quarto seja mais bem sucedida. Pede à mulher para fechar os olhos e para se virar de costas enquanto ele prepara o cenário. Mas ela transgride e espreita. É nessa altura que vai aos arames: “Então tu achas que eu sou dessas?! O que é que estás a preparar nas minhas costas?! Ias prender-me para depois fazeres de mim o que quisesses?! Olha, para mim acabou! Vou tomar uma pastilha digestiva e dormir, que amanhã levanto-me cedo para trabalhar!”.

O macho murchou. Voltou a vestir os boxers do Rato Mickey e julga ter aprendido a lição. Cinco minutos depois, a mulher está a dormir e ele a ver os resumos dos jogos da Liga dos Campeões. Da próxima vez que quiser impressiona-la, vai levá-la a jantar fora e não se atreverá a nada mais arrojado do que a posição de missionário.

As coisas simples funcionam sempre.

P.S. – Este artigo não é biográfico. A minha mulher adora que eu cozinhe (e olhem que cozinho mal) e que compre artigos na sex shop. Além do mais, não tenho lareira e a minha mãe não tem carta de condução.

Written by Luís Maia

Luís Maia nasceu a 15 de Outubro de 1976, na Póvoa de Varzim. Licenciou-se em Comunicação Social no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Em 1999 trocou um emprego em part-time, num call center, por um estágio remunerado somente com senhas de refeição, na redação da TVI. Iniciou aí uma carreira de repórter que o levou a produtoras como a Duvideo, Teresa Guilherme Produções e Comunicassom, para além do jornal 24 Horas e de estações como a TVI e a SIC. Entre 2008 e 2009 viveu em Angola, onde coordenou o entretenimento do primeiro canal privado daquele país, a TV Zimbo. Actualmente trabalha para a FremantleMedia, fazendo reportagens em directo no segmento de actualidade criminal, do programa Queridas Manhãs da SIC. É baterista reformado, ex-futuro jogador de poker. Mas é, sobretudo, marido, pai e, segundo consta, bom chefe de família.

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