A vida é uma aprendizagem. Eu e a minha mulher, aprendemos com o tempo que a pior hora para dar colo a uma criança é à noite, na hora de adormece-la. Aqui vai o testemunho:

A questão é que muitos papás e mamãs tendem a cozinhar a ciência com uma pitada de emoção. Eu e a Susana pertencemos a esse grupo. Para além de seguir os conselhos do pediatra, decidimos oferecer muito colo ao nosso filho de cada vez que o ouvimos chorar. Se ele tem cólicas, basta chorar que nós oferecemos-lhe colo. Se ele tem fome, basta chorar que nós oferecemos-lhe colo. Se ele tem fome, basta chorar que nós oferecemos-lhe colo. Se ele quer colo, basta chorar que nós oferecemos-lhe colo.

Talvez tenha sido a primeira lição que ensinámos ao Afonso. A do colo. E é uma lição maravilhosa, porque quando seguramos um filho junto ao peito, não somos nós a dar-lhe colo a ele. É também ele a dar-nos colo a nós. Quando o puto adormece embalado pelos meus braços, sinto-me protegido, sinto-me amado, sinto que o mundo e a vida fazem mais sentido do que nunca. Imagino que a Susana sinta algo semelhante quando o alimenta com o peito, quando oferece uma pequena porção do seu próprio corpo para lhe  dar vida. Talvez tenhamos ficado viciados nessa sensação de conforto, no calor dessa partilha. Provavelmente, muitos pais tornam-se adictos a estas genuínas formas de expressão de amor verdadeiro, porque o amor não tem limites e ultrapassa qualquer barreira. Mas as suas manifestações, ou a forma como o demonstramos, têm de correra favor das nossas crias e nunca contra. Ou seja, por mais que o coração nos diga o contrário, não se pode fazer qualquer coisa para agradar a um bebé, nem que seja dar-lhe colo por tudo e por nada.

in, O Meu Filho Não Dorme, Luís Maia, Editora Guerra e Paz, 2018

Written by Luís Maia

Luís Maia nasceu a 15 de Outubro de 1976, na Póvoa de Varzim. Licenciou-se em Comunicação Social no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Em 1999 trocou um emprego em part-time, num call center, por um estágio remunerado somente com senhas de refeição, na redação da TVI. Iniciou aí uma carreira de repórter que o levou a produtoras como a Duvideo, Teresa Guilherme Produções e Comunicassom, para além do jornal 24 Horas e de estações como a TVI e a SIC. Entre 2008 e 2009 viveu em Angola, onde coordenou o entretenimento do primeiro canal privado daquele país, a TV Zimbo. Actualmente trabalha para a FremantleMedia, fazendo reportagens em directo no segmento de actualidade criminal, do programa Queridas Manhãs da SIC. É baterista reformado, ex-futuro jogador de poker. Mas é, sobretudo, marido, pai e, segundo consta, bom chefe de família.

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