É impossível esquecer Pedrogão, impossível esquecer Castanheira de Pêra, impossível esquecer Mação, Góis, Oliveira do Hospital, Pampilhosa da Serra e tantos outros recantos deste Portugal, impiedosamente consumidos pelas chamas em 2017. É impossível esquecer as vidas perdidas, 116 ao todo. É impossível esquecer as lágrimas, o sofrimento, o desespero dos que lutaram contra as chamas, sem outro auxilio que não o das próprias mãos e de meia dúzia de ferramentas rudimentares.

É impossível esquecer o homem que exortou a mulher a fugir, para ficar ele próprio a defender a casa das chamas que se aproximavam. Horas depois soube que a tinha mandado para a morte.

É impossível esquecer a senhora que prescindiu de adquirir os seus próprios medicamentos, de modo a ter dinheiro para comprar ração para os poucos animais que lhe restavam, pois dependia deles para sobreviver.

É impossível esquecer o homem que se salvou, fugindo na bagageira do carro de um vizinho, sobrelotado por pessoas que fugiam à morte.

É impossível esquecer o homem que me ameaçou com a sua caçadeira, por achar que eu e o repórter de imagem éramos apenas mais dois burlões, que estariam a tentar enganar as vítimas dos incêndios que viviam isoladas.

Como ser humano e como repórter, creio que nunca poderei apagar o que vi, o que ouvi e o que senti entre Junho e Outubro do ano passado. Jamais assisti a tão profundo caos, em toda a minha vida. Este ano tem de ser diferente!

Written by Luís Maia

Luís Maia nasceu a 15 de Outubro de 1976, na Póvoa de Varzim. Licenciou-se em Comunicação Social no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Em 1999 trocou um emprego em part-time, num call center, por um estágio remunerado somente com senhas de refeição, na redação da TVI. Iniciou aí uma carreira de repórter que o levou a produtoras como a Duvideo, Teresa Guilherme Produções e Comunicassom, para além do jornal 24 Horas e de estações como a TVI e a SIC. Entre 2008 e 2009 viveu em Angola, onde coordenou o entretenimento do primeiro canal privado daquele país, a TV Zimbo. Actualmente trabalha para a FremantleMedia, fazendo reportagens em directo no segmento de actualidade criminal, do programa Queridas Manhãs da SIC. É baterista reformado, ex-futuro jogador de poker. Mas é, sobretudo, marido, pai e, segundo consta, bom chefe de família.

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