Há quem goste de começar a ler os livros pelo final. Eu não sou desses, mas hoje vou vestir a pele do spoiler, como se diz nos dias que correm. Vou revelar os derradeiros parágrafos do meu último livro, O Meu Filho Não Dorme. Porque o final desta história é o principio da nova vida da minha família. E porque estas linhas são testemunhas de uma história de amor verdadeiro.

Antes de mim, outros progenitores tiveram noites terríveis na companhia dos filhos. E depois de mim, outros tantos passarão com certeza pelo mesmo, ou por pior. Mas nem todos conseguem sair ilesos desta viagem. Nem todos conseguem chegar ao fim sem ver o seu mundo, ou pelo menos parte dele, ruir como um castelo de areia atropelado pela maré. E não. Não é exagero! Há casais que passam a dormir separados por causa do ritmo de sono dos bebés. Há pais a perder cabelo e mães a ficar em pele e osso devido ao stress provocado pela situação. Há lares que se fragmentam por completo, sob a pressão das rotinas impostas para resolver o problema. No fim da linha, está o divórcio, que muitas vezes ocorre porque os papás e mamãs não se põem de acordo quanto à forma de resolver esta questão estrutural, que tem implicações de fundo na vida de um agregado.

Para evitar o abismo, temos de nos agarrar à esperança, ser persistentes, manter as tropas unidas lá em casa em torno de um objectivo. E o objectivo só pode ser o de dar noites descansadas a toda a gente, começando pelo bebé. Para lá chegar, é preciso fazer o que tem de ser feito, ainda que os meninos e meninas chorem, ou que algumas etapas do processo deixem os nossos corações de pais num desassossego. Jamais devemos aceitar as noites em claro como algo normal ou inevitável. Porque não são! O caminho para chegar ao porto seguro que afortunadamente encontrei é tortuoso, por vezes maldito, mas a meta está lá à frente. A vida não é o labirinto de Creta!

Felizmente, aguentei. Aguentei porque aguentámos os quatro, sem deixar a casa vir abaixo. Aguentei porque a Susana é uma grande mulher, que segura todas as pontas numa situação de crise, e porque tem a coragem de confiar em mim, mesmo quando lhe proponho um caminho que não seria a sua primeira escolha. Aguentei porque a Lia é uma marmota linda que não levanta ondas se lhe dissermos para dormir num colchão, no soalho do nosso quarto e porque nem pestaneja se o irmão estiver aos gritos, a meio da madrugada, mesmo ao lado dela. Aguentei porque o Afonso é um bandido maravilhoso, um menino valente e inteligente, que soube aprender o que o papá lhe ensinou. Aguentei porque aguentámos os dois. E, quem sabe, por termos aguentado juntos tantos momentos tão difíceis, no limiar do desespero, hoje somos unha e carne. Sem medo de ser tomado por imodesto ou vaidoso, posso afirmar com segurança termos a cumplicidade que, acredito eu, qualquer pai e qualquer filho devem ter. Obrigado Afonso! Por não saberes dormir, fizeste de mim melhor pai e, talvez, melhor pessoa.

Written by Luís Maia

Luís Maia nasceu a 15 de Outubro de 1976, na Póvoa de Varzim. Licenciou-se em Comunicação Social no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Em 1999 trocou um emprego em part-time, num call center, por um estágio remunerado somente com senhas de refeição, na redação da TVI. Iniciou aí uma carreira de repórter que o levou a produtoras como a Duvideo, Teresa Guilherme Produções e Comunicassom, para além do jornal 24 Horas e de estações como a TVI e a SIC. Entre 2008 e 2009 viveu em Angola, onde coordenou o entretenimento do primeiro canal privado daquele país, a TV Zimbo. Actualmente trabalha para a FremantleMedia, fazendo reportagens em directo no segmento de actualidade criminal, do programa Queridas Manhãs da SIC. É baterista reformado, ex-futuro jogador de poker. Mas é, sobretudo, marido, pai e, segundo consta, bom chefe de família.

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