Todos os dias acordo a pensar no meu filho e na minha família. Todos os dias deito-me a pensar no meu filho e na minha família. Por essa e por muitas outras ordens de razão, há reportagens que me custam horrores.

Em Abril de 2015, um homem assassinou o filho de cinco meses com uma facada no peito, em Linda-a-Velha, concelho de Oeiras. Os jornais da época publicaram uma selfie do homicida, com o menino ao colo. A imagem tinha sido captada dias antes do crime e deixou-me petrificado. Era muito parecida com as selfies que, por aqueles dias, eu próprio tirava com o Afonso, diariamente, antes de sair de casa, para depois mandar à minha mulher que já se encontrava no trabalho. Não sei quantas vezes engoli em seco durante aquele directo. Vinha-me à memória o fotograma do bebé ao colo do pai e não conseguia evitar o vislumbre de horror, ao imaginar os últimos instantes de vida do menino.

Um colega da TVI, que foi pai pouco depois de mim, escusou-se a fazer essa reportagem. Pediu para trocar com uma colega que não tem filhos. Depois de me ver no ar, telefonou-me e só disse – Tu és maluco… não consegui ir para aí”. Eu fui, mas para dizer a verdade, só queria sair dali o mais rápido possível.

A 10 de Abril de 2018, uma mulher assassinou a filha recém-nascido, com vários golpes de faca. Deu à luz, em casa, com a ajuda da irmã gémea. Escondeu a gravidez e combinou o parto secreto com a pessoa em quem mais confiava. Não teve a ajuda de anestésicos nem quando a criança saiu do seu ventre, nem quando foi suturada nos genitais. As manas só telefonaram para o Número Nacional de Emergência Médica, porque não conseguiram estancar a hemorragia da parturiente. Quando os bombeiros e a polícia chegaram, a bebé estava dentro de um saco do lixo.

Este é mais um daqueles directos em que, durante quatro ou cinco minutos, tenho de me esquecer que sou pai, para conseguir ser jornalista e não perder a clarividência.

 

 

Written by Luís Maia

Luís Maia nasceu a 15 de Outubro de 1976, na Póvoa de Varzim. Licenciou-se em Comunicação Social no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Em 1999 trocou um emprego em part-time, num call center, por um estágio remunerado somente com senhas de refeição, na redação da TVI. Iniciou aí uma carreira de repórter que o levou a produtoras como a Duvideo, Teresa Guilherme Produções e Comunicassom, para além do jornal 24 Horas e de estações como a TVI e a SIC. Entre 2008 e 2009 viveu em Angola, onde coordenou o entretenimento do primeiro canal privado daquele país, a TV Zimbo. Actualmente trabalha para a FremantleMedia, fazendo reportagens em directo no segmento de actualidade criminal, do programa Queridas Manhãs da SIC. É baterista reformado, ex-futuro jogador de poker. Mas é, sobretudo, marido, pai e, segundo consta, bom chefe de família.

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